Segunda-feira, Março 14, 2005

Passem por lá...


Na Biblioteca Museu República e Resistência, Núcleo Grandela, de 1 a 8 de Abril.
MPA

Terça-feira, Março 08, 2005

Já vamos sendo conhecidos...

O jornal da diocese de Évora "A Defesa", nº 4206, de 2 de Março, traz este simpático artigo da autoria do padre António Fernando Marques, o que para nós se torna muito gratificante:

No dia 18 de Fevereiro de 2005, quando me dirigi ao barbeiro habitual para o corte periódico do cabelo, ao folhear um jornal local, deparei com o seguinte titulo: "Aldraba" já deu os primeiros passos.
O artigo de o "Diário do Sul" despertou-me interesse porque trazia como subtítulo: "Nova Associação do Património Popular privilegia o Sul". A razão principal da minha curiosidade é porque me interesso por tudo o que diz respeito ao Património Cultural e penso que tudo o que fizermos para a sua preservação, valorização e divulgação nunca será demais.
Afinal o que é a ALDRABA?
Em primeiro lugar o dicionário diz-nos que aldraba vem do árabe "aD-Dabbâ – Trinco" e significa: "Peça metálica, geralmente, em forma de argola, colocada na parte exterior da porta e que serve para bater ou para a puxar".
Temos também as palavras ''aldrabar" e "aldrabão", que nada terá a ver com a dita "peça metálica", mas sim com "mentir", "enganar" e " indivíduo mentiroso que fala atabalhoadamente".
No desenvolvimento da notícia dizia-se: "Uma nova associação está a ser preparada desde Novembro de 2004, tendo o Sul como horizonte para sua actuação" mais adiante informa que esta Associação pretende ser: "Um ponto de encontro e de comunicação para a preservação e divulgação do Património Popular... através da pesquisa, recolha e análise documental das memórias dos sítios, das pessoas, dos grupos e das colectividades... Afirmar-se como interlocutora na defesa e na valorização do património popular em todas as suas vertentes".
Esta nova Associação de defesa do Património enquadra-se, juridicamente, no artigo 10º. da Nova Lei do Património Cultural de 2001 “Lei de bases da política e do regime de protecção e valorização do Património cultural" (Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro).
Segundo o artº. 1, a participação dos cidadãos na gestão efectiva do Património Cultural pela Administração Pública poderá ser assegurada por estruturas associativas, designadamente, Institutos Culturais, Associações de Defesa do Património Cultural e outras Organizações de direito associativo.
No n.º 2, define-se a estrutura associativa de defesa do património cultural: "sem fins lucrativos, dotadas de personalidade jurídica, constituídas nos termos da lei geral e em cujos estatutos conste como objectivo a defesa e a valorização do património cultural ou deste e do património natural, conservação da natureza e promoção da qualidade de vida", acrescentando, no nº. 3, que estas estruturas associativas podem ser de âmbito nacional, regional ou local e de representatividade genérica ou específica.
O dever de preservar, defender e valorizar o Património Cultural não pertence só ao Estado, às Regiões Autónomas e Autarquias Locais, mas a todos os cidadãos, individualmente, ou agregados em Associações, Entidades interessadas e Empresas especializadas. Deve existir, entre todos uma colaboração recíproca para fins de: "identificação, reconhecimento. conservação, segurança, restauro, valorização e divulgação de bens culturais" (artigo 4.º, n.ºs 1 e 2).
Como podemos definir :?
A referida Lei do Património (Lei nº" 107/2001) divide os Bens Culturais em: Imóveis e Móveis, sendo os primeiros subdivididos em três categorias: monumentos, conjuntos e sítios, podendo, uns e outros, ser classificados de interesse nacional, público e municipal.
No artigo 9º. identificam-se os Bens Imateriais: "Realidades que, lenda se não suporte em coisas móveis ou imaneis, representem testemunhos etnográficos ou antropológicos com valor de civilização ou de cultura com significado para a identidade e memória colectivas" (n.º 1).
No n.º 2 recomenda-se especial protecção para "as expressões orais de transmissão cultural e os modos tradicionais de fazer, nomeadamente as técnicas tradicionais de construção e de fabrico e os modos de preparar as alimentos".
Segundo a referida notícia sobre esta nova Associação de Defesa do Património Popular "Aldraba", um dos seus objectivos é "chamar a atenção sobre tantos objectos e tanta cultura imaterial, que podem ser salvos da ignorância que condena à extinção".
"ALDRABA" tem o meu aplauso, assim como todas as Associações que se constituam para defendei, preservar e valorizar o nono Património Cultural.

Sexta-feira, Março 04, 2005

O Museu do Chocalho em Alcáçovas

No concelho de Viana do Alentejo, na lindíssima vila de Alcáçovas, um artesão chocalheiro, apaixonado pelo seu ofício, foi fazendo da oficina um museu.
“Chamo-me João Chibeles Penetra, tenho 75 anos, e nasci em Alcáçovas em…”, assim começa o mestre a sua apresentação e a do museu que criou na própria oficina, para que fique testemunho de uma “arte” que um dia poderá ser devorada pela globalização.
“As pessoas vinham visitar a minha colecção de chocalhos e eu, inda bem não, ouvia dizer: há um segredo para fazer um chocalho. E eu um dia deitei-me e veio-me à ideia de mostrar, da primeira fase até à última, como se faz o chocalho, para as pessoas verem que não há segredo nenhum. É preciso aprender-se como se aprende outro ofício qualquer(...)”


Pela devida ordem, que por ali não se usa nem nunca se usou a produção em série, automática e anónima, cada chocalho, grande - manga, sem serra, castelhano - ou pequeno – chocalho, campanilha, picadeiro, chocalhinho – tem um percurso próprio, um som exclusivo, como que uma identidade única.
Riscar e talhar a folha de ferro“Eu explico. A gente não vai fazer dois chocalhos, ou cinco chocalhos ou seis chocalhos e dizer assim vou fazer estes chocalhos e saem com aquele som, não senhor, não somos capazes, nem ninguém sabe. A gente calcula a folha que vai aplicar a determinado tamanho de chocalho e põe-lhe o metal, mais ou menos, nuns e noutros; isto não tem peso nem medida, e um calculo da gente, da grande experiência que tem, pode num pôr um bocadinho mais noutro um bocadinho menos, quando está a talhar com a tesoura, não é com aquela medida exacta, e a olho, e portanto, pode cortar mais, pode cortar menos, e quando está a fabricá-lo, a molda-lo, pode-se fechar ou abrir mais a boca, conforme o talhe que se tire e aí oscila logo o som. Para tirar um dúzia de chocalhos com o mesmo som tenho que fazer cem para tirar esses doze com o som mais ou menos igual (…).”


Enrolar, pôr o céu e a asa
- "Depois começa-se a moldar - chama-lhe a gente enrolar o chocalho - com o martelo, na bigorna; faz esta composição, dobrou, chama-lhe a gente meter os cantos, que é para fazer a orelha do chocalho onde segura a asa para pendurar, p'ra meter a coleira e segurar ao pescoço do animal. A seguir abre-se um buraco que é para meter o céu, onde se pendura o badalo para fazer tocar o chocalho - a gente corta umas tiras da própria chapa ao tamanho do chocalho que está a fazer. À ponta faz-lhe as pestanas. (…)O nome céu já vem de muito atrás. Uma das vezes vou a uma feira, à feira de Garvão, e há um moiral que olha p'ra mim e diz-me assim: Ó amigo, você sabe qual é o mestre que trabalha mais alto que todos? E pá, eu nunca tinha ouvido isso e disse: não sei, não senhor. Então você não sabe ? Pois claro que não. É o chocalheiro, porque trabalha por cima do céu (do céu do chocalho), quando está a pôr a asa. Portanto o céu está aqui e agora põe-se a asa aqui por cima. (…)”
Por as marcas"A seguir é que se põem as marcas de fabricante ou de casas agrícolas. Esta marca que está aqui é minha, esta outra era do meu pai (…)”


E ainda: Embarrar. Soldar ou cobrear. Rebolar. Dar água. Temperar ou afinar. Por o badalo – embadalar.
Para terminar, um fecho, fecho de coleira, esta feita à medida aproximada do cachaço ou cabeçorra do animal. “Depois veio a cágueda que é de madeira, que é aí que eu digo que há cáguedas muito bem feitas, cáguedas arrendadas a bico de navalha, feitas pêlos moirais, que nesse tempo quando andavam nos burros e nas éguas tinham tempo para fazer isso tudo e agora é um bocado de pau e pronto! Faziam-nos com raízes de azinheira, que é uma madeira branda antes de ver o Sol, mas depois de trabalhada e de seca é ferro. Foi o próprio vaqueiro que me explicou isto tudo (…)”


O que aqui se transcreve, é em parte feito a partir do estudo e recolha etnográfica de José Monarca Pinheiro. Mas as palavras, puras e autênticas, repetidas sem enfado nem monotonia ao longo de anos de labor ou na orgulhosa mostra dos variadíssimos exemplares de chocalhos e mangas, são as mesmas que ouvimos do Sr. João Chibeles Penetra, “o Mestre que trabalha por cima do céu”.
MPA

Quinta-feira, Março 03, 2005

Depois de Montemor

Depois de Montemor, veio Viana do Alentejo. Um grupo já bastante maior do que o inicial. A ideia da ALDRABA vai-se desenvolvendo e cada amigo traz outro amigo também. A consolidação do sonho vai acontecendo nos gestos e nas palavras de cada encontro.
Começámos em Alcáçovas. O Sr. João Chibeles Penetra, artesão de chocalhos, mestre nas palavras, percorreu connosco um museu e uma vida e na sua fala reencontrámos cada momento da formação daquele notável acervo museológico. O tempo escasso de que dispusemos não permitiu prolongar tanto quanto o desejado aquele momento de aprendizagem e convívio. Mas obriga-nos ao retorno.
Dos ex-votos da Senhora d’Aires ficou o interesse por aquela forma de manifestação da fé popular, a densa presença do fantasma da Guerra Colonial e a impressão de que muito há a fazer para melhorar as condições em que se encontram expostos – ali como em muitos outros santuários . Ficaram também alguns ensinamentos sobre a forma de preparar visitas deste tipo: a necessidade de encontrar quem possa tecer algumas considerações sobre o tema em causa, de maneira a evitar a quase inevitável dispersão que surge quando tal não é feito.


O almoço num restaurante junto ao castelo de Viana, carne no alguidar com migas de espargos, permitiu o convívio a que nossa companheira Rosa Dias acrescentou a beleza da sua poesia. Foi ocasião também para discutir a ALDRABA, a proposta de estatutos, as iniciativas futuras.

O grupo de companheiros que acalentam este sonho vai-se alargando. Vejam:

Para este encontro encontrámos o apoio aberto e franco da Câmara Municipal de Viana do Alentejo e do Posto de Turismo onde o Sr. Germano, pessoa conhecedora das coisas da terra, para além de nos oferecer as pastas para a documentação, nos orientou sobre a localização do património com mais interesse em Viana e, ainda mais importante, manifestou o seu interesse na ALBRABA.


JMP

Quarta-feira, Março 02, 2005

Encontro da "Aldraba" em Viana do Alentejo

Num dos mais belos sítios do Alentejo, decorreu a segunda iniciativa desta associação do Espaço e Património Popular.Visitámos o museu do chocalho do sr. João Penetra, em Alcáçovas, o santuário da Senhora de Aires, com uma impressionante colecção de Ex-Votos, que infelizmente tem uma parte dos documentos expostos a necessitar de urgente recuperação. Almoçou-se num lugar simpático e de excelente gastronomia- o restaurante S. Luís, hum que déli as migas de espargos a acompanhar a magnífica carne de alguidar e que dizer da encharcada! Após a refeição, bem regada por um tinto corrente de eleição, foi a vez de escutar a excelente poetisa popular Rosa Dias e de Joaquim Avó, presidente da "Alma Alentejana", que dirigiu elogiosas palavras ao trabalho avançado pela comissão promotora desta novel associação, além de algumas intervenções dos promotores e activistas.
A visita ao castelo e igreja, bem como a uma olaria, em alegre passeio pelas ruas da sede do concelho, constituíram a segunda parte do encontro, que teve a particpação de cerca de 30 pessoas.
Pelas manifestações de apreço, os promotores, no final desta iniciativa, estavam visivelmente satisfeitos, até porque o registo oficial está concluído, passando-se à fase organizativa seguinte: aprovação dos estatutos e fundação, propiamente dita, com o empossamento dos primeiros corpos sociais, o que ocorrerá em breve.
Parabéns a todos os que fazem a "Aldraba" ser um jardim de sorrisos e fraternidade!
(extraído do blog de LFM)